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O teatro de improviso nas universidades portuguesas: uma conversa que ainda não aconteceu e devia acontecer já

Plataforma IMPROV
há 2 dias
5 min de leitura

Há um facto pouco divulgado que, por si só, justificaria este artigo: um dos livros de referência mundial sobre improvisação organizacional — The Routledge Companion to Improvisation in Organizations (2024) — foi co-editado por um professor português, sediado numa faculdade portuguesa. Miguel Pina e Cunha, da Nova School of Business and Economics, publica sobre este tema em revistas como a Academy of Management Review, a Organization Science e a Journal of Management Studies desde o final dos anos 90, ao lado de nomes incontornáveis do campo como Ken Kamoche e Mary Crossan, de quem já falámos muito neste blog. Portugal não está, portanto, à margem da investigação internacional sobre improvisação aplicada à gestão. Está, na verdade, entre quem a escreve.


E, no entanto, na nossa pesquisa com os nossos agentes de IA, não encontrámos nennhuma faculdade portuguesa que ofereça aos seus estudantes de gestão, comunicação, direito, engenharia ou saúde uma cadeira, um módulo ou sequer um workshop estruturado que aplique, na prática, aquilo que essa mesma investigação já demonstrou de forma consistente há mais de duas décadas.


Este é o paradoxo que este artigo pretende expor, e a conversa que, nas nossas faculdades, ainda não aconteceu.


A literatura académica sobre improvisação organizacional não é recente nem marginal. Cresceu de forma sustentada a partir de finais da década de 1990, quando investigadores como Karl Weick (1998) começaram a propor a improvisação como um enquadramento legítimo para compreender a acção organizacional em contextos de incerteza. Frank Barrett (1998), num artigo hoje amplamente citado, usou o jazz como metáfora estrutural para descrever como equipas eficazes combinam competência técnica com disponibilidade para o inesperado, antecipando, de forma notável, muito do que se discute hoje sobre agilidade organizacional.


O contributo mais relevante para o argumento deste artigo vem, contudo, de Dusya Vera e Mary Crossan (2005), num estudo publicado na Organization Science que testou directamente algo que, até então, era mais assumido do que demonstrado: a competência de improvisar pode ser treinada. O estudo mostra que equipas submetidas a formação estruturada em técnicas de teatro de improviso melhoram de forma mensurável a sua capacidade de responder, em conjunto, a situações não planeadas, e que esse ganho não é um efeito secundário divertido, mas uma competência transferível para o desempenho da equipa fora da sala de formação.


Esta ideia de que o teatro de improviso constitui um método de treino, e não apenas uma metáfora explicativa, tem sido testada directamente em contexto de sala de aula. Dan Moshavi (2001), num artigo publicado no Journal of Management Education, descreve e avalia a introdução de exercícios de teatro de improviso em cursos de gestão, documentando ganhos autorrelatados em conforto com a ambiguidade, escuta activa e capacidade de resposta em grupo. E mais recentemente, Jonathan Rossing e Krista Hoffmann-Longtin (2016), num artigo dedicado especificamente ao ensino superior, argumentam que os princípios do improviso (sobretudo a aceitação activa da contribuição do outro, conhecida na literatura como o princípio “yes, and”) oferecem às instituições académicas uma estratégia concreta para desenvolver comunidades de sala de aula mais colaborativas e para preparar docentes e estudantes para lidar com mudança e incerteza.

Não se trata, portanto, de uma tendência de gestão sem lastro científico. Trata-se de um corpo de investigação com três décadas de profundidade, publicado nas revistas mais rigorosas da área da gestão e da educação, e que aponta consistentemente na mesma direcção.


Enquanto esta investigação amadurecia nos artigos científicos, várias faculdades de referência começaram a transformá-la em prática lectiva concreta. A Stanford Graduate School of Business oferece, desde que foi criada pela docente Debra Schifrin, a cadeira de MBA “Spontaneous Management", descrita pela própria escola como o seu primeiro e único curso de liderança baseado em improviso, hoje complementada por uma segunda cadeira sobre criatividade organizacional. A Duke Fuqua School of Business introduziu, mais recentemente, uma cadeira de improviso desenhada para preparar os seus estudantes de MBA para pensar e comunicar sob pressão, um desenvolvimento suficientemente relevante para ser noticiado pela imprensa especializada em 2024. A UCLA Anderson School of Management, o MIT Sloan e a Columbia Business School têm, todas, oferecido formação semelhante, um movimento que a imprensa económica internacional já descreveu como uma resposta sistémica das escolas de gestão à percepção de que a preparação técnica tradicional deixou de ser suficiente para formar líderes e decisores.


O fenómeno não se limita à gestão. Um dos exemplos mais bem documentados vem, precisamente, de fora do mundo empresarial: o Alan Alda Center for Communicating Science, fundado em 2009 na Stony Brook University, usa exercícios de improviso teatral para treinar cientistas, de físicos a epidemiologistas, a comunicar investigação complexa a públicos não especializados, decisores políticos e meios de comunicação. O método está integrado no currículo formal do mestrado em comunicação de ciência da universidade, não como actividade extracurricular, mas como componente lectiva avaliada.


O que estas instituições têm em comum não é a área científica, mas o diagnóstico: comunicação sob pressão, colaboração eficaz e capacidade de resposta à incerteza são competências que se desenvolvem por prática estruturada e repetida. E o teatro de improviso é, entre os métodos disponíveis, um dos mais estudados e mais eficazes para o fazer.


A ausência não é, como o primeiro parágrafo deste post procurou deixar claro, uma ausência de conhecimento científico. Portugal tem, através do trabalho de Miguel Pina e Cunha e dos seus colaboradores, incluindo António Cunha Meneses Abrantes, do ISCTE-IUL, co-autor do “Elgar Introduction to Organizational Improvisation Theory” (2023), uma posição de destaque internacional na própria teoria que sustenta estas práticas. O que falta é a etapa seguinte: a tradução dessa investigação, produzida em Portugal e reconhecida mundialmente, em experiência formativa para os estudantes portugueses que um dia vão gerir as mesmas organizações que esses artigos estudam.


Esta distância entre a produção teórica e a prática lectiva não é exclusiva de Portugal, mas é, no contexto português, particularmente evidente. As escolas de gestão, comunicação e engenharia portuguesas ensinam, com todo o mérito, a teoria da liderança, da comunicação organizacional e da gestão de equipas. Ensinam menos, ou praticamente nada, a praticá-la em condições que se aproximem da imprevisibilidade real que esses mesmos conceitos pretendem descrever, a mesma distância, de resto, que Moshavi (2001) identificou entre o ensino tradicional de gestão, centrado em casos e teoria, e a experiência vivida de gerir sob incerteza.


É com este diagnóstico que a Plataforma IMPROV tem vindo a desenvolver um conjunto de programas especificamente desenhados para o contexto empresarial e académico.

Os nossos programas não pretendem substituir a formação teórica que as faculdades já oferecem, aliás, nem poderiam, nem deveriam. Pretendem fechar exactamente a distância que a literatura aqui revista identifica: entre saber descrever uma competência e ser capaz de a exercer, em tempo real, diante de outras pessoas.


A conversa sobre trazer o teatro de improviso para dentro das faculdades portuguesas ainda não aconteceu de forma consistente. A investigação que a sustenta, porém, já está feita em boa parte, escrita por portugueses. Falta apenas dar o passo que separa publicar a teoria de a ensinar. Vamos mudar isto?

 
 
 

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