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O erro não negativo ou como aprendi a não ter medo de falhar.

Plataforma IMPROV
há 2 dias
4 min de leitura

Lembro-me exatamente do momento. 2015 ou 2016, Teatroesfera em Queluz, plateia cheia, uma cena que eu tinha construído havia menos de um minuto com um colega improvisador, o André Pedro. Era uma discussão entre dois irmãos numa cozinha (experimentávamos o formato "Sopa d'Ávó - ver foto).

mário abel e andré pedro numa cena improvisada

A minha personagem já tinha nome, já tinha história. E então, a meio de uma frase, troquei o nome dele pelo nome errado. Não foi um deslize subtil, disse mesmo um nome completamente diferente, com toda a confiança de quem não percebeu o que acabou de fazer. Senti o estômago a apertar durante uma fracção de segundo e antes de eu conseguir reagir, o meu colega de cena olhou para mim e disse: “Agora já sabes porque é que nunca gostei de ti.” A plateia riu. A cena ficou melhor. E eu aprendi, ali, de pé, em público, uma coisa que nenhuma sala de aula me tinha conseguido ensinar: o erro não é automaticamente mau. É só informação nova à espera de ser usada.


Isto foi há alguns anos. Hoje, é provavelmente uma das lições mais valiosa que levo para dentro de qualquer sala de aula ou formação corporativa, e a mais difícil de convencer as pessoas a acreditar, antes de a sentirem no corpo.


“Erro” é uma palavra estranha. E devia ser neutra. Descreve, simplesmente, um resultado diferente do esperado, mas carrega, para a maioria de nós, décadas de treino escolar, avaliações de desempenho e reuniões desconfortáveis. Fomos ensinados, cedo e de forma consistente, que errar é o oposto de ter sucesso. Que um erro visível é uma mancha no currículo, e um erro corrigido em silêncio é melhor do que um erro assumido em voz alta.

A investigadora de Harvard Amy Edmondson passou décadas a estudar isto e chegou a uma distinção que uso constantemente: nem todos os erros são iguais, mas quase todos são tratados da mesma forma errada. Há erros que resultam de negligência, e esses merecem consequência. E há uma categoria enorme de erros que não são falhas de carácter mas que resultam de experimentar, de decidir depressa com informação incompleta, e de tentar algo que ainda não se domina. São o preço de estar a aprender alguma coisa. E, no entanto, tratamo-los todos com o mesmo desconforto, o mesmo instinto de escondê-los primeiro e perceber depois se valia a pena.


O teatro de improviso tem uma vantagem estranha sobre praticamente qualquer outro contexto de aprendizagem: não há forma de escondermos um erro. Ele acontece à frente de toda a gente, em tempo real, sem possibilidade de o apagar ou de voltar atrás com um “desculpem, deixem-me recomeçar”. A única opção é continuar, e rapidamente descobre-se que continuar costuma ser suficiente.


Há um ritual, comum em algumas escolas de improviso, chamado failure bow: quando algo corre mal em palco, faz-se uma vénia breve, quase cómica, e segue-se em frente. A primeira vez que fiz isto senti-me ridículo. A quinta vez, comecei a perceber o que estava realmente a acontecer: estava a treinar o corpo e a cabeça a associar “errei” a “continuo”, em vez de “errei” a “paro tudo e entro em pânico”. É, sob outro nome, exactamente aquilo que a Amy Edmondson chama segurança psicológica, treinada fisicamente, repetidamente, até se tornar reflexo.


É essa transferência que ocorre do palco para a sala de reuniões que vejo acontecer sempre que trago este exercício para uma formação SPEAKEASY. Gestores que nunca pisaram um palco na vida ficam, de início, aterrorizados com a ideia de errar diante de colegas. E depois, quando o erro finalmente acontece — porque acontece sempre, mais cedo ou mais tarde — e a sala não desaba, algo muda visivelmente na postura das pessoas. Relaxam. Arriscam mais na tentativa seguinte. É a coisa mais próxima que já vi de assistir à confiança a ser instalada em directo.


Vale a pena ser claro sobre uma coisa, porque é onde esta ideia costuma ser mal interpretada: aprender a não ter medo de falhar não é o mesmo que deixar de querer acertar. Continuo a preparar-me, continuo a querer que as cenas funcionem, continuo a querer que as formações corporativas tenham impacto real. A diferença é o que acontece no segundo depois de perceber que algo correu mal.


Nas formações de ON THE SPOT, quando peço a equipas de gestão para decidirem depressa, sob pressão, sem toda a informação de que gostariam de ter, observo sempre o mesmo padrão: quem tem mais medo de errar hesita mais e acaba inevitavelmente por cometer o erro mais caro, não por decidir mal, mas por decidir tarde demais para haver espaço de manobra. Aprender a não temer o erro não torna ninguém descuidado. Torna-o mais rápido a corrigir, o que, na prática, é quase sempre mais valioso do que nunca errar.


Três coisas que continuo a treinar, dentro e fora do palco:


  1. Dizer o erro em voz alta antes que alguém o descubra por mim. Tira-lhe o peso de segredo e devolve-o a facto simples.

  2. Separar o que aconteceu de quem eu sou. “Isto correu mal” é diferente de “eu falhei”. Todos falhamos. E por vezes as coisas correm mal. Não é objectivamente uma falha minha porque estamos todos no mesmo barco. Mas somos todos responsáveis pela cena, pela continuação da história e pela coerência da mesma.

  3. Voltar à cena imediatamente. No palco e fora dele, o pânico depois do erro costuma custar mais do que o próprio erro.


Ainda hoje, quando algo corre mal numa formação, numa reunião com um cliente ou numa cena em palco, sinto aquele mesmo aperto de estômago de há alguns anos. Recentemente aconteceu-me no En Athines em Atenas, a meio de um espectáculo com colegas internacionais. Apesar da minha experiência, essa sensação não desapareceu e acho que não devia desaparecer de todo. Sei que é o que nos mantém atentos. O que mudou foi o que faço a seguir a esse segundo. Já não escondo. Continuo.


É esse, no fundo, o exercício que levo para cada sala: não ensinar ninguém a gostar de errar, mas a deixar de gastar tanta energia a fingir que não aconteceu.

 
 
 

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