Do Barreiro a Atenas: uma viagem de soundpainting no Festival I.TH.A.C.A.
- Mário Costa
- há 12 minutos
- 2 min de leitura
Há convites que chegam e imediatamente sabemos que vão ficar guardados como marcos. Foi assim que recebi o convite para dar um workshop de soundpainting no Festival I.TH.A.C.A. (Improv, Theatre & Creative Arts), em Atenas — um festival organizado pela ImproSynthesis, e que este ano assumiu como tema "Building Bridges": construir pontes entre pessoas, formas de arte e mundos criativos diferentes.
E poucas experiências ilustram melhor esse tema do que a que vivi.
Desde o primeiro contacto, a organização do festival recebeu-me com um cuidado e uma simpatia que tornaram tudo mais fácil: desde a logística até às pequenas conversas antes do workshop. Sente-se, em festivais como este, que há uma comunidade internacional de improviso que fala a mesma língua, mesmo quando as línguas literais são diferentes.
O workshop de soundpainting culminou, como é habitual, num pequeno espetáculo de apresentação, onde o grupo, composto por improvisadores de várias nacionalidades, com percursos e culturas de palco muito distintas, teve de compor, em tempo real, uma peça a partir da linguagem gestual do soundpainting. Foi fascinante observar como a textura cultural de cada participante entrava na composição: o ritmo, a forma de ocupar o espaço, o à-vontade (ou o pudor) com o silêncio, a relação com o humor. Um grupo internacional com improvisadores vindos de outros pontos da Europa pode trazer alguns artritos interpretativos, porque cada um traz sempre a sua uma "gramática corporal", mas foi justamente esse atrito criativo, essa fricção de referências, que deu à peça final uma riqueza que dificilmente conseguiríamos com um grupo culturalmente homogéneo.
Foi também um lembrete valioso sobre aquilo que torna o improviso tão bonito: a sua capacidade de encontrar uma linguagem comum ali mesmo, no momento, entre pessoas que partem de pontos muito diferentes. O soundpainting, por não depender da palavra, tornou-se a ponte perfeita — cada gesto foi traduzido de forma distinta por cada corpo, e ainda assim a peça fez sentido como um todo. É isso que o improviso nos ensina, uma e outra vez: que a beleza não está em eliminar a diferença, mas em compor com ela.
Volto de Atenas com mais um festival no percurso, mais amizades no mapa do improviso europeu, e a certeza reforçada de que este é um trabalho de pontes, exatamente como propunha o tema do festival. Mário
%203%20%20(1).jpg)





















Comentários