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Improviso: como é visto no estrangeiro — e o trabalho que ainda temos pela frente em Portugal

  • Foto do escritor: Mário Costa
    Mário Costa
  • há 11 horas
  • 10 min de leitura
um improvisador pensativo

Introdução: duas palavras que chegam a Portugal com atraso


Há dois termos que, no espaço de duas décadas, transformaram a forma como algumas das maiores organizações do mundo pensam o desenvolvimento de pessoas: Applied Improvisation. Improviso Aplicado.


Nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Escandinavia e, com crescente visibilidade, no Brasil e na Argentina, o improviso deixou há muito de ser uma prática exclusiva de salas de ensaio e festivais de teatro. Tornou-se currículo universitário, programa de formação executiva, metodologia de desenvolvimento organizacional e campo de investigação académica em psicologia, neurociência e liderança.


Em Portugal, o percurso é diferente, mas não totalmente ausente. Existem praticantes, escolas e iniciativas de qualidade, mas marcados por uma assimetria que vale a pena nomear com clareza: a distância entre o que o improviso aplicado pode ser e o que ainda é percebido como sendo, em grande parte pelo tecido empresarial e educativo português.


Atenção ao nosso DISCLAIMER: Este artigo não é um exercício de lamentação. É um mapeamento honesto do estado da arte internacional, uma avaliação do contexto português e um argumento, sustentado em evidência, sobre o que está em jogo para quem trabalha nesta área no nosso país. Não deixa contudo de ter o meu bias, e por isso, também pode estar sujeito a alguns lapsos ou inadvertidas injustiças. Em qualquer dos casos, é apenas um estudo e uma reflexão sobre esta matéria, apesar da abstracção da minha própria avaliação.


A origem: de Chicago para o mundo


O improviso moderno tem raízes identificáveis: Viola Spolin nos anos 1950, Del Close e a sua geração nos anos 1960 e 70, e Keith Johnstone no Reino Unido em paralelo. Mas a sua expansão para fora do contexto teatral é um fenômeno dos anos 1990 e 2000, impulsionado sobretudo pelo trabalho de Patricia Ryan Madson em Stanford, de Mary Scannell e outros em contextos de formação corporativa, e pela fundação da Applied Improvisation Network (AIN) em 2003.


A AIN (hoje com membros em mais de 40 países) representa o marco mais claro da institucionalização do improviso aplicado como campo autónomo. A organização promove investigação, partilha de práticas e formação de facilitadores com um rigor que coloca o improviso aplicado a par de outras metodologias de desenvolvimento organizacional estabelecidas. (Vera & Crossan, 2004; Lobman & Lundquist, 2007)

EUA Estados Unidos da America


O mercado mais desenvolvido — e o mais diversificado


O improviso aplicado nos EUA tem uma presença institucional sem equivalente. A Second City, fundada em Chicago em 1959, tem hoje um departamento de formação corporativa, a Second City Works, que trabalha com empresas como Google, Kraft e Deloitte. A Kellogg School of Management da Northwestern University integrou currículo de improviso nos seus MBAs desde os anos 2000. O MIT, Duke e Stanford incorporaram metodologias de improviso em programas de liderança, design thinking e inovação. A comunidade de facilitadores de Applied Improvisation nos EUA ultrapassa vários milhares de profissionais, com um mercado estimado em centenas de milhões de dólares anuais. (Crossan et al., 2005; Vera & Crossan, 2004)

GBR Reino Unido


Rigor académico e integração no ensino superior


O Reino Unido tem uma relação com o improviso aplicado simultaneamente mais académica e mais integrada no seu sistema educativo. O trabalho de Keith Johnstone, que passou anos no Royal Court Theatre antes de emigrar para o Canadá, criou uma tradição britânica própria. Hoje, a RADA Business (o braco empresarial da Royal Academy of Dramatic Art) oferece programas de liderança e comunicação baseados em metodologias teatrais a empresas FTSE 100, posicionando o teatro aplicado como ferramenta estrategica de desenvolvimento executivo, não como actividade periferica. A London Business School integra componentes de improviso em programas de liderança desde os anos 2010.


O improviso como cultura organizacional - Improviso: como é visto no estrangeiro


A Escandinávia oferece o caso mais interessante de integração do improviso nos valores organizacionais. Em países com culturas de trabalho marcadas pela horizontalidade, pela confiança e pelo que os investigadores designam por psicologia de segurança (Edmondson, 1999), o improviso encontrou um terreno cultural particularmente fértil. Na Dinamarca e na Suécia, o improviso aplicado é ensinado em programas de gestão, em escolas de design e em contextos de saúde e educação. A investigação nórdica sobre criatividade organizacional cita regularmente metodologias de improviso como componentes de ambientes de alta performance. (Amabile, 1996; Csikszentmihalyi, 1996)


A tradição latina mais próxima de nós


O improviso latino-americano tem história própria, alimentada por uma tradição teatral vigorosa. No Brasil, o mercado de teatro aplicado e improviso corporativo cresceu significativamente na última década, com escolas e profissionais a trabalharem regularmente com multinacionais e empresas de tecnologia. Na Argentina, o improviso tem uma presença cultural fortíssima. Buenos Aires é uma das cidades com maior densidade de companhias de improviso do mundo, e uma integração crescente em contextos de formação em soft skills e liderança. A proximidade linguística e cultural com Portugal torna esta experiência particularmente relevante como referência para o nosso contexto.

O que a investigação diz sobre o impacto do improviso no dia-a-dia das empresas


A expansão do improviso aplicado não é um fenómeno de moda. Está sustentada por investigação que documenta o seu impacto em dimensões específicas e mensuráveis.

74% dos participantes em programas de improviso aplicado reportam melhoria significativa na capacidade de escuta activa (Gwyer, 2010, citado em Hinshelwood, 2018)

Vera e Crossan (2004), num dos estudos mais citados na literatura de improviso organizacional publicado na Organization Studies, demonstram que organizações com maior capacidade de improviso, definida como acção criativa e adaptativa em tempo real, apresentam maior resiliencia e capacidade de inovacao. Neal et al. (2012), no Journal of Applied Psychology, identificam a adaptabilidade como um dos preditores mais robustos de desempenho em ambientes de trabalho complexos.


O Fórum Económico Mundial (2023) identifica criatividade, pensamento crítico, resolução de problemas complexos e coordenação com outros como quatro das dez competências mais valorizadas no mercado de trabalho da próxima década. O improviso trabalha todas. Esta não é uma coincidência, é pertinência estrutural. "O improviso organizacional é a capacidade de criar com os recursos disponíveis, em tempo real, em resposta a uma situação inesperada. Não é improvisação no sentido pejorativo mas sim a competência mais exigente que uma organização pode desenvolver." Mary Crossan & Marc Sorrenti, Journal of Management Studies (1997)

Como se vê, o Improviso: como é visto no estrangeiro - e como é visto em Portugal - tem as suas assimetrias muito vincadas. Vamos mudar isto?


O contexto português: um diagnóstico honesto


Seria injusto dizer que Portugal não tem história de improviso. Tem.

Existem companhias com trajetórias, festivais com continuidade e um ecossistema de praticantes que, em muitos casos, se formou no estrangeiro e trouxe para Portugal referenciais de elevada qualidade. Há iniciativas de teatro aplicado em contextos educativos, sociais e de saúde. Há profissionais que trabalham com empresas e que produzem resultados reais. É importante dizê-lo, não como gesto de autocomplacência, mas porque o diagnóstico justo reconhece o que existe antes de nomear o que falta.


O que falta e deve ser dito com igual clareza:


PROBLEMA 1: O IMPROVISO COMO ENTRETENIMENTO


Em Portugal, o improviso é ainda frequentemente percebido, por parte do público geral, das empresas e até de alguns agentes culturais, como uma forma de entretenimento. Uma actividade para ver, não para praticar. Esta percepção não é exclusivamente portuguesa, mas em Portugal é particularmente persistente. Tem consequências directas: o improviso é contratado como animação de eventos e raramente como programa de desenvolvimento com continuidade e intenção pedagógica clara.


PROBLEMA 2: A AUSÊNCIA DO ENSINO SUPERIOR


Nenhuma universidade portuguesa integra, de forma sistemática, metodologias de improviso em currículos de gestão, comunicação, psicologia organizacional ou educação. Esta ausência é significativa: os currículos universitários formam as expectativas de uma geração e conferem estatuto epistemológico a metodologias. Em contraste, escolas de gestão nos EUA, Reino Unido e Escandinávia integram estas metodologias há mais de vinte anos. A ausência do improviso aplicado nos currículos portugueses não reflecte falta de pertinência, reflecte falta de conversa entre o campo e a academia.


PROBLEMA 3: CULTURA DO ERRO E A DISTÂNCIA HIERÁRQUICA


O improviso pressupõe uma relação específica com o erro, tratado como informação, não como veredicto, e uma dinâmica de horizontalidade que pode entrar em conflito com culturas organizacionais hierárquicas. Portugal tem, historicamente, índices elevados de distância ao poder na taxonomia de Hofstede (1980) — embora esta dimensão esteja em evolução nas gerações mais jovens e nas empresas do sector tecnológico. Esta característica cultural não inviabiliza o improviso aplicado. Pode, pelo contrário, torná-lo mais necessário. Mas exige uma abordagem pedagógica que a reconheça, em vez de importar modelos norte-americanos sem adaptação ao contexto português.


PROBLEMA 4: O MERCADO DE FORMAÇÃO E A LÓGICA DO PREÇO


O mercado português de formação corporativa é relativamente maduro em formação técnica e compliance, mas continua a ter dificuldade em valorizar competências transversais de forma congruente com o seu impacto real. A formação em soft skills é frequentemente a primeira a ser cortada em ciclos de redução orçamental e a última a ser reintegrada. Neste contexto, o improviso aplicado compete com metodologias mais estabelecidas — coaching, mentoring, formação em liderança convencional — sem ainda ter a mesma legibilidade institucional que tem noutros mercados.

Ainda sobre Portugal


Os dados do Eurostat sobre participação em formação contínua de adultos revelam que Portugal se situa abaixo da média europeia — 10,5% vs uma média de 12,1% em 2022, com países nórdicos a atingirem valores entre 28% e 33%. Estes dados não dizem respeito especificamente ao improviso, mas contextualizam o ecossistema em que este opera: um país onde a formação contínua e sistematicamente subvalorizada, o que torna mais difícil a inserção de metodologias inovadoras.


O relatório do Fórum Económico Mundial sobre o Futuro do Trabalho (2023) indica que 44% das competências actuais dos trabalhadores serão disruptidas nos próximos cinco anos. Portugal tem um índice de preparação para esta transição — medido em qualidade do sistema educativo, investimento em I&D e políticas de aprendizagem ao longo da vida — que se situa na metade inferior da Europa Ocidental. Neste contexto, a formação em soft skills e em metodologias inovadoras de desenvolvimento de competências não é uma opção de nicho: é uma necessidade estrutural.

O trabalho que temos pela frente


Em primeira instância é preciso legitimar o improviso como campo profissional. O primeiro desafio é epistemológico: estabelecer o improviso aplicado como um campo com metodologia própria, base de evidência documentada e critérios de qualidade identificáveis. Não é suficiente que quem pratica saiba que funciona — é necessário que quem contrata possa avaliar com critérios claros. Isto implica documentação de resultados, publicação de estudos de caso, participação na investigação internacional e uma comunicação que posicione o improviso não como actividade simpática mas como ferramenta de desenvolvimento com impacto mensurável em comunicação em equipa, liderança e criatividade organizacional.


NA PLATAFORMA IMPROV


A Plataforma Improv tem trabalhado nesta direção, posicionando os seus programas: SPEAKEASY, CREATIVITY/FLOW, ON THE SPOT e os team buildings criativos, com descrições de competências trabalhadas, referenciais pedagógicos e resultados esperados. O objectivo não é apenas proporcionar uma experiência e criar legibilidade para uma pratica que ainda não tem o estatuto que merece no mercado portugues.


Em segunda instância é necessário construir pontes com o ensino superior O improviso aplicado tem de entrar nas universidades portuguesas, não necessariamente como disciplina autónoma, mas como metodologia integrada em currículos existentes: comunicação organizacional, liderança, criatividade, psicologia do trabalho. Isto requer que os profissionais da área estabeleçam conversas com académicos e com responsáveis por programas de MBA e de formação executiva. Requer, também, que a investigação existente — na sua maioria em língua inglesa — seja tornada mais acessível e referenciada em contextos portugueses.


A investigação de Vera e Crossan (2004), de Edmondson (1999) sobre psicologia de segurança e de Amabile (1996) sobre criatividade organizacional oferece um enquadramento teórico robusto que pode e deve ser mobilizado nestas conversas. O improviso aplicado tem base empírica suficiente para estar nas universidades portuguesas. O que falta são as pontes entre quem pratica e quem investiga.

Em relação ao terceiro passo desta integração é fundamental adaptar sem perder o rigor do modelo português. Um dos erros mais fáceis de cometer é importar modelos anglo-saxónicos de improviso aplicado sem adaptação ao contexto cultural português. O que funciona em Chicago ou em Copenhagen não funciona necessariamente da mesma forma em Lisboa ou no Porto — e isso não é uma limitação: é uma oportunidade.


Portugal tem uma cultura relacional específica, uma relação particular com a improvisação no quotidiano (que existe, de forma não codificada, em muitos aspectos da vida portuguesa), e um contexto organizacional que, nos seus melhores momentos, combina informalidade com competência. Um modelo português de improviso aplicado que parta destas especificidades, em vez de as ignorar, pode ser mais eficaz e mais sustentável do que a mera importação de metodologias estrangeiras.


Esta é, precisamente, uma das apostas da Plataforma Improv: desenvolver uma linguagem e uma abordagem de improviso aplicado que seja rigorosa nos seus fundamentos pedagógicos, sustentada na investigação internacional, mas que responda ao contexto específico das organizações e das pessoas com quem trabalhamos em Portugal.


Em quarto lugar: criar comunidade e ecossistema. O improviso aplicado, nos contextos onde está mais desenvolvido, não existe apenas como prática de indivíduos isolados, existe como ecossistema. Há escolas, festivais, publicações, redes de facilitadores, programas de formação de formadores, investigação, conversa publica. Em Portugal, este ecossistema existe em estado embrionário. Há peças importantes: temos praticantes, organizações e audiências. O que falta é a estrutura que as conecta e que torna o campo mais do que a soma dos seus indivíduos. Construir este ecossistema é um trabalho de décadas, não de trimestre. Mas começa com gestos específicos: partilha de práticas entre profissionais, documentação de experiências, presença em conversas públicas sobre educação, formação e desenvolvimento organizacional.


Por último, é prioritário mostrar resultados, consistentemente. O mercado português é, como já referi, extremamente cético, o que pode ser saudável. No entanto, o ceticismo não se responde com entusiasmo mas com evidência. Cada programa de team building criativo que produz impacto mensurável, cada sessão de improviso nas empresas que gera mudanças observáveis nos padrões de comunicação de uma equipa, cada workshop de formação em soft skills que e avaliado com rigor e cujos resultados são documentados — tudo isto contribui para construir a legibilidade que o campo precisa.


Não é suficiente saber que funciona. É necessário demonstrá-lo de forma que o mercado português, com todas as suas especificidades culturais e as suas expectativas de retorno sobre investimento, possa reconhecer e valorizar.

O trabalho é longo e vale a pena


A distância entre o que o improviso aplicado noutros contextos internacionais e o que ainda existe em Portugal não é uma falha. É um estado transitório. E, como todos os estados transitórios, tem uma direção possível. Essa direção requer trabalho em várias frentes em simultâneo: legitimar a prática, construir pontes com a academia, adaptar os modelos ao contexto português, criar ecossistema e demonstrar resultados com consistência. Nenhuma destas frentes tem solução rápida, mas são todas necessárias.


Há algo que o improviso ensina, com uma clareza que nenhuma outra prática iguala: a única forma de chegar ao segundo acto é completar o primeiro. O trabalho que temos pela frente começa com o que estamos a fazer agora. Vamos a isso?


 
 
 

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