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5 livros sobre Improviso que mudaram a minha forma de ver o mundo

  • Plataforma IMPROV
  • 23 de mar.
  • 11 min de leitura

Atualizado: 27 de mar.

(E que provavelmente vão mudar a vossa também. Ou pelo menos vão fazer-vos questionar algumas coisas. O que já é muito.)


5 livros sobre Improviso

Aviso prévio (importante)


Existe uma categoria de livros que se lê e se esquece três semanas depois. Existe outra categoria de livros que se lê e que, de alguma forma silenciosa e irreversível, reorganiza qualquer coisa lá dentro.


Os 5 livros sobre improviso desta lista pertencem à segunda categoria. Não são livros de auto-ajuda com títulos motivacionais e capítulos sobre acordar às 5 da manhã. São livros escritos por pessoas que passaram anos em palco, a falhar em público de forma repetida e produtiva, e que encontraram nessa prática algo que vale a pena partilhar.


Aviso honesto: nenhum deles é uma leitura fácil no sentido de ser leve ou superficial. São livros que exigem que se pare, que se releia, que se experimente. Mas se há uma coisa que o improviso ensina é exactamente essa: a aprendizagem acontece a fazer, não a ler sobre fazer.


O que estes livros fazem, e fazem bem, é dar vocabulário e estrutura a experiências que qualquer praticante de improviso reconhece. E é por isso que continuam a ser relevantes décadas depois de escritos. Tanto para quem está em palco como para quem trabalha com comunicação em equipa, liderança ou criatividade em contexto organizacional.


NOTA METODOLÓGICA DE GRANDE RIGOR CIENTÍFICO - SOBRE OS 5 LIVROS DE IMPROVISO


Esta lista é subjectiva. Foi feita por alguém com opiniões fortes sobre improviso, uma tolerância acima da média para metáforas sobre jazz e gastronomia, e uma desconfiança saudável em relação a qualquer livro que prometa mudar a sua vida em 30 dias. Dito isto, estes cinco mudaram efectivamente qualquer coisa. Não em 30 dias. Em anos de prática.

Omar Argentino Galván


Nota prévia: Tenho o enorme prazer de ter trabalhado com o Omar (fizemos um workshop de Soundpainting em Sintra, nos idos anos de 2014, patrocinado pela Byfurcação Teatro). É um improvisador excelente, e um formador muito experiente. Apesar disso, este foi um dos últimos livros de improviso que li. Mas vamos ao que interessa:


Existe uma metáfora que atravessa este livro de ponta a ponta: o salto. Não o salto calculado, ensaiado, com rede de segurança. O salto genuíno: o que se dá sem saber onde se vai aterrar.


Omar Argentino Galván é uma figura central do improviso latino-americano, e este livro tem uma qualidade rara: foi escrito por alguém que pratica o que escreve. Não é um académico que estudou improviso do exterior. É um improvisador que, a certa altura, decidiu pôr no papel o que aprendeu ao longo de anos em palco.


O que distingue Del Salto al Vuelo de muitos outros livros da área é a sua honestidade sobre o desconforto. Galván não vende o improviso como uma prática fácil, libertadora e cheia de gargalhadas. Vende-o como é: um trabalho exigente de relação com a incerteza. O "salto" do título não é metáfora de leveza, é metáfora de coragem.


Uma das ideias mais poderosas do livro é a distinção entre improvisadores que "jogam para não perder" e improvisadores que "jogam para ganhar". Os primeiros protegem-se, controlam, evitam o risco. Os segundos entram, comprometem-se, aceitam as consequências. A diferença entre os dois não é talento, é disposição.


A CENA QUE FICOU NA CABEÇA


Galvan descreve um exercício simples: entrar em palco sem ideia nenhuma e ficar parado até que algo aconteça, sem fingir que se sabe o que se está a fazer. O objectivo não é gerar uma cena brilhante. É treinar a tolerância ao vazio. A maioria das pessoas aguentam entre três e sete segundos antes de preencher o silêncio com qualquer coisa. A prática é aumentar esse tempo. E com ele, a capacidade de estar presente sem agenda.


O QUE ISTO TEM A VER COM A VIDA REAL


A distinção entre "jogar para não perder" e "jogar para ganhar" é uma das mais directamente transferíveis para qualquer contexto de trabalho. Em reuniões, em negociações, em apresentações, a diferença entre quem se protege e quem se compromete é exactamente esta. E é exactamente isto que se trabalha em contextos de improviso nas empresas: não a performance, mas a disposição.


Na nossa formação SPEAKEASY — o programa da Plataforma Improv dedicado à comunicação e à palavra — trabalhamos directamente esta distinção. Um dos exercícios de aquecimento mais utilizados é exactamente o do silêncio activo: estar em frente a uma audiência sem dizer nada, sem se desculpar, sem preencher o vazio com ruído. Parece simples. Não é. E é um dos treinos mais eficazes de presença que conhecemos.

Jason Chin


Este livro não devia existir. Ou melhor: devia existir, mas provavelmente não deveria ter sido escrito. Passo a explicar:


O long-form é uma das formas mais complexas de improviso: tem estruturas longas, com múltiplos personagens, arcos narrativos e temas que emergem organicamente da cena. É também uma das formas mais difíceis de ensinar, porque a sua lógica é, em parte, contra-intuitiva: quanto mais se tenta controlar uma estrutura de long-form, pior fica. Quanto mais se confia no processo, mais belo se torna.


Chin consegue o prodígio de explicar isto com clareza sem o tornar uma receita. O "zen" do título não é decorativo, é literal. O livro usa a filosofia zen como moldura para falar de improviso: a ideia de que a acção mais eficaz é frequentemente a que emerge sem esforço consciente, a que flui em vez de forçar.


Uma das secções mais memoráveis é sobre o que Chin chama de "o problema do jogador inteligente": o improvisador que é tecnicamente competente, conhece todas as estruturas, antecipa os padrões, e é por isso, paradoxalmente, menos interessante em palco do que alguém que sabe menos mas está mais presente.


A METÁFORA DO SURF


Chin compara o improvisador ao surfista: não cria a onda, não a controla, não a prevê. Escolhe quando entrar, como posicionar o corpo, quando soltar. A onda faz o trabalho. O surfista apenas tem de ser bom o suficiente para não se atrapalhar. Esta imagem perturbou-me de uma forma que ainda não resolvi completamente. O que é, claro, uma forma de dizer que funcionou.


O QUE ISTO TEM A VER COM A VIDA REAL


"O problema do jogador inteligente" é de uma relevância directa para qualquer programa de formação em soft skills com pessoas de alto desempenho. Os perfis técnicos mais competentes, engenheiros, juristas, consultores, são frequentemente os que mais resistem ao improviso, precisamente porque a sua inteligência analítica tende a interferir com a presença. O livro de Chin dá vocabulário preciso a este paradoxo.

NA PLATAFORMA IMPROV FAZEMOS EXACTAMENTE ISTO:


O programa CREATIVITY/FLOW da Plataforma Improv trabalha directamente com este paradoxo. É um programa desenhado para equipas de alta performance que precisam de recuperar capacidade criativa e de risco, precisamente porque o excesso de controlo técnico tende a sufocar a inovação. Nos team buildings também usamos exercícios inspirados nesta filosofia, especialmente com grupos onde a tendência de controlo é mais marcada.

Mick Napier


Napier é o tipo de professor que diz em voz alta o que todos os outros professores de improviso pensam mas não dizem. E isso, por si só, já justifica a leitura. Este livro é, em grande medida, uma reacção. Uma reacção às regras do improviso, àquele conjunto de mandamentos ("não negues", "escuta o teu parceiro", "sim e") que, ensinados de forma demasiado literal, produzem improvisadores ansiosos, obedientes e terrivelmente aborrecidos. Napier não descarta estes princípios. Descarta a sua idolatria.


O argumento central do livro é elegante: o improviso começa no próprio improvisador. Antes de qualquer técnica, antes de qualquer estrutura, há um ser humano em cena com um ponto de vista, uma história, um corpo. E é desse lugar (e não das regras) que as cenas mais vivas emergem.


Napier introduz o conceito de "self-endowment": a capacidade do improvisador de se dotar a si próprio de perspectiva, de emoção, de especificidade, em vez de esperar que o parceiro ou a cena lhes forneçam esse material. É uma inversão radical de perspectiva: em vez de reagir ao que acontece, o improvisador torna-se agente.


A CITAÇÃO QUE SUBLINHEI TRÊS VEZES


Napier escreve qualquer coisa do género: "A regra mais importante do improviso é que não há regras mais importantes do que o que está a acontecer agora." Isto pode soar a cliché motivacional de má qualidade. Não é. É uma instrução técnica precisa sobre a hierarquia de prioridades em cena. E é uma das coisas mais difíceis de ensinar e de aprender.


O QUE ISTO TEM A VER COM A VIDA REAL


O conceito de "self-endowment" tem uma transferência directa para qualquer contexto de comunicação em equipa: a diferença entre o colaborador que espera que a reunião lhe dê energia, perspectiva e relevância, e o colaborador que entra na reunião com um ponto de vista próprio, mesmo que provisório, mesmo que incompleto. A segunda postura é a que move as coisas. E é uma postura que se treina.

NA PLATAFORMA IMPROV FAZEMOS EXACTAMENTE ISTO:


Na nossa formação ON THE SPOT — o programa da Plataforma Improv focado em performance sob pressão e tomada de decisão em tempo real — usamos exactamente a abordagem de Napier como estrutura. Em vez de ensinar técnicas de resposta, treinamos os participantes a desenvolver um ponto de vista antes de entrar em qualquer situação. O resultado é imediato: pessoas que comunicam com mais especificidade, mais convicção e mais capacidade de adaptar sem perder o fio. Nos team buildings com foco em liderança, este é frequentemente o exercício que mais impacto gera.

Jimmy Carrane & Liz Allen


Este livro tem um título honesto até à brutalidade. Não promete que vai transformar a vida. Não promete iluminação criativa. Promete exactamente o que diz: ajudar a improvisar melhor. E cumpre.


Jimmy Carrane e Liz Allen escreveram um livro de trabalho, no melhor sentido. É um livro para ser usado, sublinhado, voltado ao meio, abandonado durante semanas e retomado com novas perguntas. Não tem a grandiosidade filosófica de alguns dos outros títulos desta lista. Tem algo que, na prática, é mais útil: exercícios concretos e explicações precisas do porquê de cada um.


O que distingue Improvising Better é o foco na psicologia do improvisador em cena, não no que deve fazer, mas no que tende a pensar enquanto o faz. Carrane e Allen são brutalmente honestos sobre os padrões mentais que sabotam o improviso: o medo de ser aborrecido, a comparação com os outros, a necessidade de ter uma boa ideia antes de agir, a tendência de "salvar" a cena em vez de confiar nela.


Há um capítulo sobre "o problema de tentar ser engraçado" que deveria ser leitura obrigatória para qualquer pessoa que alguma vez entrou numa reunião a tentar parecer interessante em vez de estar genuinamente presente. É o mesmo mecanismo. É o mesmo problema.


O CONSELHO MAIS SIMPLES E MAIS DIFÍCIL DO LIVRO


Carrane e Allen escrevem em vários momentos, de formas diferentes, a mesma coisa: "Pára de tentar. Começa a fazer." Esta distinção entre a tentativa (que implica esforço visível, ansiedade e resultado incerto) e a acção (que implica comprometimento sem garantias) é a base de quase tudo o que está no livro. E é a base de quase tudo o que está no improviso. Nota: quando me reúno com alguns colegas dos tempos de faculdade, temos sempre na ponta da língua uma máxima que era muito repetida pelo nosso ex-professor Jean Paul Bucchieri da cadeira de CORPO/PERFORMANCE (licenciatura Actor-Teatro - Escola Superior de Teatro e Cinema). Tempos a tempos, virava-se para nós e exclamava: "Não pensa, faz!".


O QUE ISTO TEM A VER COM A VIDA REAL


O foco na psicologia do improvisador é de uma relevância directa para qualquer programa de team building criativo ou de desenvolvimento de liderança. Os padrões descritos por Carrane e Allen: o medo de ser aborrecido, a necessidade de ter uma boa ideia antes de falar, a tendência de salvar em vez de construir, são exactamente os padrões que impedem a colaboração genuína em equipas. Não é falta de competência técnica. É psicologia.

NA PLATAFORMA IMPROV FAZEMOS EXACTAMENTE ISTO:


Nas sessões de SPEAKEASY da Plataforma Improv, trabalhamos directamente com estes padrões. Uma das dinâmicas mais utilizadas é a que chamamos de "má ideia deliberada": pede-se aos participantes que proponham intencionalmente a pior ideia que conseguem imaginar para resolver um problema real. O que invariavelmente acontece é que, libertados da pressão de serem brilhantes, as pessoas começam a propor coisas genuinamente interessantes. Carrane e Allen teriam aprovado.

Charna Halpern, Del Close & Kim 'Howard' Johnson


Este é o livro fundador. O que estabeleceu as bases do long-form moderno, sistematizou o Harold — uma das formas estruturais mais influentes do improviso contemporâneo — e introduziu princípios que continuam a ser ensinados em escolas de improviso de todo o mundo décadas depois de escritos.


Del Close é, para muitos, o equivalente a um guru do improviso: uma figura simultaneamente venerada e desconcertante, cujos ensinamentos foram tão influentes que é quase impossível ler um livro de improviso contemporâneo sem encontrar o seu eco. Charna Halpern foi quem transformou esses ensinamentos em sistema. Kim Howard Johnson foi quem os tornou legíveis para mortais. Foi um bom trabalho de equipa.


O título diz tudo: Truth in Comedy. A ideia central é que o humor mais eficaz, e a cena de improviso mais poderosa, emerge não da tentativa de ser engraçado, mas da honestidade. Da verdade emocional. Do momento genuíno entre duas pessoas em palco que reconhecem algo real na situação em que estão.


Este princípio parece óbvio quando se lê. É extraordinariamente difícil de aplicar. Porque a tentação de ser engraçado, de fazer a piada, de aliviar a tensão, de salvar o silêncio com um gag, é permanente. E porque a verdade, em palco, implica vulnerabilidade. Implica mostrar qualquer coisa que não está ensaiada.


O HAROLD: UMA NOTA PARA OS CURIOSOS


O Harold é uma estrutura de long-form com três grupos temáticos que se desenvolvem ao longo de uma performance, conectando-se de formas inesperadas. Foi nomeado assim por Del Close em homenagem a... não está completamente claro. Há versões diferentes. O que é claro é que produziu algumas das cenas de improviso mais notáveis dos últimos 50 anos e continua a ser ensinado na ImprovOlympic (hoje iO Chicago) que Halpern fundou. Se não sabem o que é, pesquisem. E depois venham a um workshop.


O QUE ISTO TEM A VER COM A VIDA REAL


"Truth in Comedy" é, no fundo, um livro sobre autenticidade. E a autenticidade é talvez a competência mais escassa (e mais valiosa) em qualquer contexto profissional. Em contextos de improviso nas empresas, este princípio traduz-se directamente: as equipas que comunicam com verdade (que dizem o que pensam, que reconhecem o que não sabem, que se mostram sem performance) são as que constroem confiança mais depressa e tomam melhores decisões.

NA PLATAFORMA IMPROV FAZEMOS EXACTAMENTE ISTO:


O princípio da verdade emocional atravessa todos os programas da Plataforma Improv — do SPEAKEASY ao ON THE SPOT, passando pelo CREATIVITY/FLOW e pelos team buildings. É a espinha dorsal do nosso trabalho com equipas: não se trata de ensinar truques de comunicação. Trata-se de criar condições para que as pessoas comuniquem com mais verdade. Que é, como Close, Halpern e Johnson sabiam, a coisa mais difícil — e a mais eficaz.

Então, por onde começar?


Se só podem ler um: Del Salto al Vuelo, se quiserem filosofia e coragem. Truth in Comedy, se quiserem fundamentos e história. Improvise: Scene from the Inside Out, se quiserem ser desafiados.


Se querem ler todos: são cerca de mil páginas no total. Com paciência, um mês. Com um grupo de leitura e discussão, três semanas e muito café.


Se quiserem experienciar o que estes livros descrevem sem ler mais uma página — há uma alternativa. As nossas formações e as nossas aulas abertas ao público.


LER MENOS E PRATICAR MAIS


Uma última coisa: estes cinco livros têm algo em comum que só percebi depois de os ter lido todos: nenhum deles é sobre improviso. São sobre presença. São sobre escuta. São sobre a coragem de entrar sem saber onde se vai sair. São sobre o que acontece quando duas pessoas decidem construir algo juntas em vez de cada uma proteger o que já tem.

É por isso que são relevantes para qualquer pessoa, independentemente de alguma vez ter pisado um palco. É por isso que as ideias que contêm aparecem, de formas diferentes mas reconhecíveis, em contextos de liderança, de criatividade, de colaboração e de comunicação.


O improviso não é uma disciplina de nicho para actores excêntricos. É uma forma de estar disponível para o que acontece. E isso, infelizmente para quem preferia uma resposta mais simples, não se aprende a ler. Aprende-se a fazer. Peferencialmente, com outras pessoas. Preferencialmente, com um bom facilitador. E, de preferência, numa sala onde seja permitido falhar sem drama.

Os Livros (para quem quer ir directamente à fonte)


Argentino Galvan, O. Del Salto al Vuelo. (ed. consultada em circulação no circuito de improviso latino-americano.)

Carrane, J., & Allen, L. (2013). Improvising Better: A Guide for the Working Improviser. Meriwether Publishing.

Chin, J. (2006). Long-Form Improvisation and the Art of Zen: The Spiritual Connection between Long-Form Improvisation and Zen Philosophy. iUniverse.

Halpern, C., Close, D., & Johnson, K. H. (1994). Truth in Comedy: The Manual of Improvisation. Meriwether Publishing.

Napier, M. (2004). Improvise: Scene from the Inside Out. Heinemann Drama.


Leituras complementares:

Johnstone, K. (1979). Impro: Improvisation and the Theatre. Faber and Faber.

Spolin, V. (1963). Improvisation for the Theater. Northwestern University Press.

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Programas de improviso aplicado para empresas, equipas e pessoas que querem criar, comunicar e colaborar com mais verdade.

 
 
 

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