O que é o improviso aplicado? Guia para quem nunca ouviu falar

Se chegou a este artigo, é provável que tenha ouvido a expressão “improviso aplicado” numa conversa de trabalho, numa proposta de formação, ou talvez numa pesquisa rápida no Google depois de alguém da sua equipa ter voltado entusiasmado de uma sessão. E é igualmente provável que a primeira imagem que lhe tenha vindo à cabeça seja a de um palco de comédia, com atores a inventar cenas absurdas a partir de uma sugestão do público, música, aplausos e muita gargalhada.
Essa imagem não está errada. Está incompleta.
O improviso aplicado parte exactamente das mesmas competências que sustentam o teatro de improviso de palco, mas desloca-as do contexto artístico para o contexto profissional, educativo ou pessoal, com um objectivo diferente: não produzir um espectáculo, mas desenvolver, de forma prática e mensurável, a forma como as pessoas comunicam, decidem e colaboram sob incerteza.
Este guia explica o que é, de onde vem, como funciona e porque é que cada vez mais empresas, universidades e organizações o estão a usar como ferramenta de desenvolvimento.
O que é, exactamente, o improviso aplicado? Improviso aplicado (em inglês, applied improvisation) é o uso estruturado de técnicas, exercícios e princípios do teatro de improviso fora do contexto de palco, com fins de desenvolvimento pessoal e profissional. Em vez de treinar atores para construir cenas diante de um público, treina gestores, equipas, estudantes ou profissionais de saúde para responder com mais confiança, criatividade e clareza a situações reais que não podem ser totalmente planeadas com antecedência — uma reunião que descarrila, uma pergunta inesperada de um cliente, uma decisão que tem de ser tomada com informação incompleta.
A diferença fundamental em relação a uma formação tradicional está no método: não se aprende a improvisar melhor ouvindo uma palestra sobre o assunto, da mesma forma que não se aprende a nadar lendo um manual de natação. Aprende-se fazendo, através de exercícios práticos, em grupo, com feedback imediato, e repetidos até que os comportamentos se tornem mais naturais.
De onde vem o improviso aplicado? O teatro de improviso moderno nasce, em grande parte, do trabalho de duas figuras incontornáveis do século XX: Viola Spolin, nos Estados Unidos, que desenvolveu nos anos 1940 e 1950 um conjunto de “jogos teatrais” pensados originalmente para ajudar crianças de bairros desfavorecidos de Chicago a ganhar confiança e espontaneidade — trabalho mais tarde sistematizado no clássico Improvisation for the Theater (1963); e Keith Johnstone, no Reino Unido e Canadá, cujo livro Impro: Improvisation and the Theatre (1979) continua a ser uma referência central para qualquer pessoa que estude o tema, e que introduziu conceitos hoje omnipresentes, como o da aceitação (“yes, and”) e o do bloqueio criativo.
A passagem destas técnicas do palco para o mundo empresarial começou a ganhar forma sobretudo a partir dos anos 1980 e 1990, nos Estados Unidos, quando formadores e consultores perceberam que os mesmos exercícios usados para formar atores eram extraordinariamente eficazes a desenvolver competências de comunicação, liderança e trabalho de equipa em contexto profissional. Hoje, o improviso aplicado é uma prática reconhecida internacionalmente, com uma comunidade própria. A Applied Improvisation Network, fundada em 2003, reúne praticantes de todo o mundo e crescente validação académica, nomeadamente através da investigação sobre improvisação organizacional desenvolvida, entre outros, pelo próprio Miguel Pina e Cunha, da Nova School of Business and Economics, de quem falámos muito recentemente.
Os princípios que sustentam tudo o resto.
Por baixo da variedade de exercícios e formatos, o improviso aplicado assenta num número reduzido de princípios, simples de enunciar e genuinamente difíceis de praticar com consistência:
“Sim, e” (Yes, and). O princípio mais citado, e o mais mal compreendido fora de contexto. Não significa concordar com tudo. Significa aceitar o que a realidade (ou o colega, ou o cliente) acabou de oferecer, em vez de o negar ou ignorar, e construir a partir daí. É o oposto do reflexo de “sim, mas”, que fecha conversas em vez de as abrir.
Escuta activa. Para construir a partir do que o outro ofereceu, é preciso primeiro ouvi-lo de facto e não planear a próxima frase enquanto o outro ainda fala, o erro mais comum e mais invisível em qualquer reunião.
Aceitação do erro como informação. No improviso, não há forma de apagar um erro, por isso, os improvisadores têm de o conseguir integrar na cena. Esta prática repetida treina a capacidade de recuperar rapidamente de um deslize, em vez de ficar paralisado por ele.
Co-criação. Nenhuma cena de improviso pertence a uma só pessoa. O resultado é sempre construído em conjunto, o que torna este método particularmente eficaz para treinar colaboração real, e não apenas coordenação de tarefas.
Presença. A atenção está no que está a acontecer agora, com as pessoas que estão à nossa frente, e não num guião mental preparado de antemão.
Resumindo, o improviso aplicado não é uma técnica única, mas uma caixa de ferramentas que se adapta a objectivos muito diferentes. Entre os usos mais comuns estão a comunicação e presença em público (ganhar confiança para falar sem guião e responder com clareza a perguntas inesperadas); a liderança e gestão de equipas (em que é costume praticar decisões rápidas, delegar e gerir reuniões em condições de incerteza real); criatividade e inovação (de forma a desbloquear a geração de ideias em equipa, reduzindo o medo de propor algo que possa ser “errado”); o trabalho em equipa e colaboração (como construir confiança entre colegas através de exercícios onde o sucesso depende, estruturalmente, de todos); comunicação clínica e científica (usado para treinar médicos e cientistas a comunicar com empatia e clareza sob pressão) e, claro, desenvolvimento pessoal (para quem simplesmente se quer sentir mais confortável com o imprevisto, dentro e fora do contexto profissional).
Como funciona, na prática, uma sessão?
Uma sessão típica de improviso aplicado não se parece com uma sala de aula tradicional, nem exige qualquer experiência prévia em teatro. Essa é, aliás, uma das perguntas mais frequentes de quem nunca participou numa. Começa normalmente com exercícios físicos e vocais simples, pensados para “aquecer” o grupo e reduzir a autoconsciência inicial. Avança depois para jogos estruturados que isolam uma competência específica, como por exemplo, um exercício focado exclusivamente em escuta, ou em construção colectiva de uma ideia. Termina, muitas vezes, com cenas mais longas que integram várias competências em simultâneo, seguidas de um momento de reflexão conjunta sobre o que aconteceu e como isso se relaciona com situações reais do dia a dia profissional dos participantes. Não é necessário “ter jeito” para teatro, nem ser extrovertido. Na verdade, é frequente serem precisamente os participantes mais reservados a beneficiar mais claramente do processo, porque o ambiente é estruturado, sem avaliação de desempenho artístico, e o objectivo nunca é ser engraçado, mas estar presente.
Onde encaixa o improviso aplicado na Plataforma IMPROV?
É exactamente nesta lógica das competências concretas, treinadas através da prática e adaptadas a objectivos reais, que assentam os programas da Plataforma IMPROV: o SPEAKEASY trabalha comunicação e presença; o ON THE SPOT foca-se em decisão sob pressão; o CREATIVITY/FLOW desenvolve criatividade e colaboração em equipa. Três portas de entrada diferentes para o mesmo território: a capacidade de responder bem àquilo que não se consegue planear.
Se este guia respondeu à pergunta “o que é”, o passo seguinte é relativamente simples: experimentar.
E já agora — sabem onde nos encontrar.
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