O que eu gostava que os meus clientes soubessem antes de me contratar

Há uma pergunta que me fazem quase sempre, normalmente a meio da primeira conversa com um cliente novo, logo a seguir às amabilidades do costume: “mas isto é tudo improvisado? Vocês chegam e inventam ali na hora?” E eu já percebi, ao longo dos anos, que a resposta curta “sim, e não” nunca é suficiente. Por isso escrevo este texto que não é para ser levado como um argumento de venda - é só uma lista sincera do que gostava que soubessem antes de se sentarem naquela sala comigo (real ou virtual).
Uma das ironias mais engraçadas da minha profissão é que quanto melhor preparada está uma sessão de improviso, mais espontânea parece. Antes de pisar qualquer sala, há uma conversa de diagnóstico, há um desenho cuidadoso de exercícios escolhidos para o momento específico daquela equipa, uma sequência pensada ao pormenor, como por exemplo, que jogo vem primeiro, qual exige mais confiança e por isso vem depois, onde é que a energia da sala provavelmente vai cair e o que se faz nesse momento. Nada do que acontece dentro da cena tem guião. Mas a arquitectura à volta da cena é, quase sempre, o resultado de horas de trabalho que ninguém vê.
Gostava que soubessem isto porque muda a forma como julgam o resultado. Quando uma sessão corre bem, não é sorte nem talento natural dos participantes: é o desenho da mesma.
O medo também é meu, não só vosso.
Há uma assunção comum de que, depois de anos a fazer isto, o nervosismo desaparece. Não desaparece. Muda de forma, talvez. Já não é o medo de “ficar em branco”, é antes a responsabilidade de perceber, nos primeiros cinco minutos, o tom certo para aquele grupo específico: quem precisa de ser puxado com mais energia, quem precisa de espaço para não se sentir exposto demais, demasiado cedo. Essa leitura acontece em tempo real, sem rede, todas as vezes. Ainda hoje, antes de uma sessão nova, sinto o mesmo nó no estômago que sentia há anos a entrar em palco pela primeira vez - aquele emaranhado de fios presos no abdómen, um peso claro de ansiedade a quem já sabe do que se trata quando a sente. Digo isto porque acho que ajuda perceber que a pessoa à vossa frente também está, de certa forma, a arriscar-se e que esse risco partilhado é, de resto, parte do que faz o método funcionar.
Há outra coisa: o silêncio que incomoda do início é um bom sinal.
Quase todas as sessões começam da mesma forma: gente de braços cruzados, meio sorriso cético, alguém a olhar para o telefone até ao último segundo possível. Alguns clientes preocupam-se com isto. Perguntam-me, a meio do primeiro intervalo, se “está a correr bem”. Esse desconforto inicial não é um sinal de que algo está a falhar; é o preço normal de pedir a adultos profissionais, habituados a controlar cada palavra numa reunião, que arrisquem alguma coisa sem rede. Se não houver, ali, um mínimo de desconforto, é provável que a sessão não esteja a pedir o suficiente a ninguém.
Participar muda tudo, e ainda mais se forem os líderes da sala.
Esta é talvez a coisa que mais gostava que os responsáveis de RH e os líderes de equipa soubessem antes de contratar uma sessão: a vossa participação não é opcional nem decorativa. Já vi sessões perderem metade do seu potencial porque um director decidiu assistir “de fora”, a avaliar, em vez de entrar em cena como mais um elemento da equipa. Faz sentido, instintivamente, eu compreendo isso. Ninguém quer arriscar parecer ridículo à frente de quem lhe vai fazer a avaliação de desempenho daqui a três meses. Mas é exactamente esse instinto, replicado por toda a hierarquia da sala, que a sessão existe para desarmar. Quando um líder entra em cena e aceita errar como qualquer outra pessoa, isso vale, por si só, mais do que qualquer exercício que eu possa desenhar.
Mas e o objectivo? É “ser engraçado”?
Há uma preocupação recorrente, sobretudo em pessoas que se descrevem como “nada engraçadas” ou “sem jeito nenhum para isto”, de que vão ser avaliadas pela qualidade das suas piadas. Isso nunca foi critério, nem nunca será. O riso que acontece numa sessão é um efeito secundário de pessoas a construírem alguma coisa em conjunto com honestidade, não o objectivo em si. Os momentos de que mais me lembro, ao longo dos anos, raramente foram os mais engraçados. Foram os mais verdadeiros: uma colaborador mais reservado a assumir uma ideia ridícula com total compromisso, um grupo a resolver, em silêncio e sem palavras, um problema físico em palco. O humor aparece como consequência. Nunca é, para mim, a métrica.
O trabalho verdadeiro começa depois de eu sair da sala.
Esta é a confissão mais importante desta lista: uma sessão de improviso, por melhor que seja desenhada e facilitada, é um ponto de partida, não um ponto de chegada. Eu posso criar as condições para que uma equipa experimente, durante três ou quatro horas, uma forma diferente de se ouvir e de construir em conjunto. O que acontece depois já não depende de mim. Depende inteiramente da equipa decidir que aquilo valeu a pena continuar a praticar. Gostava que os meus clientes soubessem isto não para desresponsabilizar o meu trabalho, mas para o colocarem no sítio certo: eu desenho a porta e seguro-a aberta durante umas horas. Atravessá-la, e continuar do outro lado, é trabalho vosso.
Escrevo isto também, confesso, como actor e dramaturgo que sou, para quem a palavra “personagem” nunca foi um exercício abstracto. Cada sessão que faço tem, de alguma forma, a mesma exigência de qualquer peça que já escrevi: honestidade antes de efeito, verdade antes de resultado. É por isso que continuo a fazer este trabalho, apesar do nó no estômago antes de cada sessão nova. E é também por isso que, sempre que um cliente me pergunta se “isto é mesmo tudo improvisado?”, respondo sempre da mesma forma: sim... e não. Agora que já sabe tudo isto, porque não falar connosco?
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